Como transformar minhas múltiplas leituras em um texto acadêmico?
Falamos no último texto sobre os múltiplos universos de sentido que nos cercam e que podem se tornar caminhos para o diálogo com as teorias que lemos durante a nossa trajetória acadêmica.
Então vamos fazer o exercício de pensar as pluralidades de experiências que vivenciamos em nossa trajetória de vida? Acompanhar determinado projeto, coordenar ações, executar atividades laborais, comunitárias, culturais, religiosas, por exemplo. E o que fazemos com essas experiências?
Por vezes nos prendemos aos postulados do método cartesiano de divisão das partes, ordenação dos objetos mais simples aos mais compostos e enumerações completas sobre o objeto (DESCARTES, 1996), deixando de observar a perspectiva do conhecimento a partir da religação de saberes (SANTOS, 2008).
Então, como valorizar o saber da experiência enquanto conhecimento? (BONDÍA, 2002).Quando fazemos o diálogo da experiência com a teoria estamos realizando um processo chamado práxis (FREIRE, 1996). Vamos lá! faça o exercício de reconhecer o valor das suas múltiplas experiências; depois, comece a problematizá-las à luz das teorias que você já leu, e aí? Quais as problematizações possíveis você encontrou neste processo? Existe coerência, incoerências, lacunas? Será que está surgindo um possível tema para escrita de um artigo ou projeto de pesquisa? E depois? Agora é voltar para o campo de pesquisa para saber se alguém já falou sobre isso, mas lembre-se que mesmo um tema muito debatido pode ser revisitado à luz de experiências e olhares ainda não externalizados no campo da escrita!
Eu sempre uso as minhas experiências ou os saberes localizados (HARAWAY, 1991) para fazer a revisão críticas das minhas leituras, por exemplo, refleti sobre como o meu processo de aprendizado jurídico não foi capaz de traduzir resoluções eficazes para as complexidades do mundo real que não estavam inseridas dentro de um arcabouço normativo formal, por isso, a partir das minhas experiências em comunidades periféricas eu comecei a estudar e escrever sobre o enfrentamento das normas legais com as normas sociais (ARAÚJO, 2018).
O que eu gostaria de evidenciar é que você pode sim problematizar as teorias com outras teorias, mas pode também ampliar a sua escrita acadêmica a partir do relato de uma experiência; o lugar de onde você fala é valoroso! E pode ser um caminho para criticar postulados teóricos ou revisá-los (foi a forma que escolhi para construir a minha trajetória na escrita acadêmica, propondo até novos caminhos para o estudo das normas legais).
Na próxima semana vamos falar um pouco sobre o processo de construção do conhecimento ta? Então, o dever de casa é buscar temas nas suas riquezas de múltiplas leituras e experiências!
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Referências Bibliográficas
Araújo, D.F.M.S; Marques, JB. Complexidade e transdisciplinaridade: novos caminhos para o estudo das normas legais. Revista Mosaico. 2018 Jan./Jun.; 09 (1): 35-43.Disponível: http://editora.universidadedevassouras.edu.br/index.php/RM/article/view/1296 Acesso em: 13 jan. 2020.
BONDÍA. Carlos Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Trad. João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação. Jan/Fev/Mar/Abr. 2002.
DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Martins Fontes. 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educa
tiva. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HARAWYA, Donna. Ciencia, cyborgs y mujeres Ciencia, cyborgs e mujeres: la reinvención de la naturaleza. Madrid: Cátedra, 1991. La reinvención de la naruraleza. Madrid> Cátedra. 1991.
SANTOS, Akiko. Complexidade e transdisciplinaridade em educação: cinco princípios para resgatar o elo perdido. Revista Brasileira de Educação. v. 13. nº 37. jan/abr. 2008.

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